O Puerpério e suas consequências

Atualizado: Mar 4


Durante o puerpério, período que pode se estender por até dois anos, a mulher enfrenta alterações físicas, hormonais e psicológicas que influenciam sua vida sexual. A retomada da atividade sexual deve ser feita aos poucos, com tempo para o casal se redescobrir.


Alguns questionamentos podem surgir. O corpo sofre algumas alterações, seja o seio que era mais “empinadinho” e agora está caído e saindo leite, a barriga apresenta algumas estrias, a cicatriz do parto pode dar queloide... dentre outras. Essas mudanças ficam evidentes e trazem insegurança na hora de retomar as relações sexuais.


- Demorou um bom tempo para eu querer ter relação sexual e quando eu tive foi horrível. Não tinha lubrificação nenhuma e era como se queimasse minha pele. - diz Letícia. Ela trocaria tudo por um longo banho sozinha (como não tem ajuda, costuma tomar banho junto com a bebê). - Eu queria mesmo era ficar 10 horas no banho. Depilar minha perna, passar um creme, fazer a sobrancelha, relaxar e me sentir mulher.


O que acontece com Letícia é o que acontece com grande parte das mulheres durante o puerpério. Esse período não tem nada a ver com o resguardo sexual, que é de 40 dias por questões médicas. Segundo a psicóloga e consultora em sexualidade Patrícia Ramos, o puerpério costuma durar cerca de dois anos depois do nascimento. Só nesse momento o bebê será mais independente, saberá se comunicar e a amamentação vai estar chegando ao fim.


- Na verdade não se fala muito sobre puerpério, é um período meio camuflado, inclusive existe confusão com o resguardo. Mas ele está mais relacionado com questões emocionais – afirma Patrícia. - O puerpério é o luto de uma mulher que não existe mais.


Letícia concorda:

- É como se eu não fosse a mesma pessoa. Sinto luto por quem eu era. Não é só o corpo. Eu era decidida e independente, hoje sou cautelosa e para tudo eu penso primeiro na minha filha”.


Pior que a menopausa


Além de todos os aspectos emocionais, a parte biológica também não ajuda. Com o parto, há uma queda hormonal abrupta: a progesterona, hormônio da gravidez produzido pela placenta, cai 400 vezes, por isso dá aquele baby blues. Depois vem a amamentação e a prolactina (hormônio do leite), que passa a inibir estrogênio e testosterona.


Não há nada errado. É o corpo reagindo. Uma artimanha da natureza para que a nova mãe se dedique ao filhote e não engravide de novo tão cedo. Porém, o resultado é cruel para a mulher: falta de libido e pouca lubrificação na vagina.


- Além de não dar vontade, ainda pode ficar doloroso. A maternidade é muito “antierótica”. Essa energia sexual é desviada para os cuidados com o bebê. Também é necessária uma reconexão com o próprio corpo, que não é o corpo da grávida, mas também não é o corpo que a mulher tinha. Os primeiros meses são piores do que a menopausa. Mas é natural e importante – afirma Carol Ambrogini, ginecologista e sexóloga, coordenadora do projeto Afrodite, da Unifesp.


Quanto mais sozinha a mulher está, mais difícil será para ela se reconectar consigo mesma ou com o parceiro. O grau de envolvimento dele com os cuidados e uma boa rede de apoio fazem muita diferença. Se a mulher não tem o que comer, não tem como tomar banho direito, não dorme, fica difícil esperar que tenha disposição para transar.


- O casal tem que ter diálogo, falar sobre a dinâmica familiar, a ajuda com o bebê, a falta de sono, as alterações de humor. É uma situação temporária e à medida que o bebê vai crescendo e a mulher vai retomando a vida dela, voltando a trabalhar, sair com as amigas, fazer ginástica, vai retomar a sexualidade. Mas muitos casais se desconectam nessa fase.


A retomada da vida sexual


A situação ideal pode demorar para acontecer. Mas isso não significa que o casal não possa ir se curtindo, afinal sexo vai muito além da penetração. Sexo oral e masturbação são atos sexuais que podem servir para manter o casal mais próximo.


Cada caso é um caso. O corpo e o psicológico de cada mulher reagem de formas diferentes quanto a ter um filho (e pode ser diferente do primeiro para o segundo). Mas, no geral, as especialistas recomendam uma retomada gradual.


- A vontade de transar tem que ser buscada, com um filme mais quente, um conto erótico, uma ida ao motel. Não tem um creme mágico de testosterona que vá resolver isso - diz a ginecologista.


Para Patrícia Ramos, ainda há uma cobrança muito grande da sociedade e dos parceiros para voltar à ativa.


- Mas são tantas coisas que acontecem no período... O que ela precisa para retomar é se reconhecer como outra mulher, retomar o prazer por ela mesma. O grande lance é entender que as coisas mudaram.


Quando a gente começa a transar, vai pisando em ovos, não é? O sexo no puerpério é isso, a retomada de uma vida sexual de uma nova mulher e de um novo homem.


Lembrando que é MUITO importante a presença e parceria do companheiro nesse momento!


Fonte: O Globo

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